Editorial

Depois da Vale

O iminente start do projeto Apolo da Vale já deu uma contribuição para a cidade: acendeu reflexões sobre o novo destino do município.

Há duas semanas o ex-ministro Paulo Haddad esteve na cidade falando para um pequeno grupo de lideranças políticas e empresariais de Caeté sobre o impacto do projeto em Caeté e na região. Os participantes teriam sido convidados pela Vale.

É, de fato, necessário alertar a população e suas lideranças sobre o rumo que o município tomará nos próximos anos. O comércio precisa se preparar para novas demandas, a população precisa estar ciente que terá concorrentes nas compras nos supermercados e nas vagas na escola e o município para novas exigências de investimentos e adequação dos seus serviços a um público que também será maior, antes mesmo de começar a fazer a receita.

Mas é preciso que este imediatismo não encubra a necessidade de pegar o binóculo e ver mais longe. A oportunidade que adviria de uma projeto como o da Vale e que enche a cidade de expectativa é também a oportunidade de uma alavancagem na economia do município para o longo prazo.

A cidade retorna às suas origens minerárias. Caeté nasceu da busca do ouro, da mineração, do burburinho de gente estranha vinda de todos os cantos do país e que se engalfinhou na região na chamada Guerra dos Emboabas. Quem se dispuser ao trabalho (algo que não tem muita gente querendo hoje...) de fazer uma pesquisa no arquivo histórico do Senado vai encontrar dezenas de Decretos assinados pelo Imperador -todos eles concedendo e transferindo lavras em Caeté. Sempre decretos envolvendo mineração.

Depois do ouro a cidade passou por um período de decadência até a cerâmica e a siderurgia, onde retornou também a mineração -a Ferro Brasileiro extraia seu minério, inicialmente, ao pé da Serra da Piedade. Foi outro ciclo que passou e a cidade voltou a viver sua crise nos anos 90 até buscar o ponto de equilíbrio de hoje -ponto vulnerável, já que grande parte da renda provém ainda de aposentadorias e pensões originárias do momento da antiga empresa.

O projeto Apolo também não é eterno e tem sua vida útil. Terá um fim. E é para este limiar que deverá estar antenado o município. De prover o município de sustentação após o Apolo.

Quem viu a última corrida de Fórmula 1 desta temporada deve ter se deliciado (quem consegue admirar os feitos dos outros mais que invejá-los) com o cenário cinematográfico da pista sob o hotel, as luzes, fruto de um projeto de US$ 25 bi que ainda receberá, só ele, outros US$ 50 bi. E há outros projetos grandiosos de Dubai que o telespectador não viu: obras grandiosas de forte apelo turístico.

O telespectador comum pode ter imaginado que isto é fácil para um país onde jorra petróleo. E em parte tem razão. Mas Dubai está investindo enquanto tem, porque as reservas de petróleo estão caindo e podem se exaurir em 20 anos. O emirado está se assegurando que sua riqueza permanecerá, em outra atividade, como o turismo. Hoje, no caminho que segue, as receitas de Dubai provenientes do petróleo e do gás já não chegam a 10%.

Dubai se prepara para continuar grande depois do petróleo. Caeté precisa crescer agora e pensar em continuar grande depois da Vale.


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