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Serra da Piedade, lendas e mistérios
A crucificação de Irmã Germana
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Irmã Germana
Irmã Germana,
que era tida por muitos como uma santa, viveu entre a Serra da Piedade, Roças
Novas e Macaúbas. O raro fenômeno da sua crucificação todas as
sextas-feiras, por mais de 40 anos, atraiu multidões. O que pode parecer uma
lenda, está descrito em uma carta que o Pe. Pedro Maria de Lacerda, depois
Bispo, escreveu com seu depoimento pessoal sobre o fato. O trecho principal da
carta é o que se segue: “Germana
Maria da Purificação nasceu em 1782 no arraial do Morro Vermelho e foi
batizada na Capela de N. S. de Nazareth do mesmo arraial. “Filha legítima
de Marcos Gonçalves Correa e Maria Camila de Nazareth, ambos pobres, mas tidos
por todos na conta de bons cristãos, foi por eles com solicitude cristamente
educada. “Teve ela
mais quatro irmãos, mas quem sobressaiu foi Germana que encheu Minas com a fama
que ainda hoje dura de seu nome. “Desde
pequena Germana dava-se à prática de muitos jejuns, mortificações e orações,
e de tal maneira que seus pais procuravam moderar-lhe o fervor, com o que
Germana doia a ponto de chorar. “Entretanto não
deixava ela nunca de cumprir os deveres que lhe incumbiam, e de ocupar-se nos
serviços próprios de seu sexo, e, como boa filha que era, do pouco que lucrava
repartia com seus pais. “Até a idade
de 28 anos, viveu Germana sempre enferma mas andava; aos 28, porém, ficou
entrevada a ponto de precisar de mão alheia até para comer. “Como Germana
era mui devota e desejava receber com frequência os Sacramentos e dar-se aos
exercícios de piedade, e como na Capela do alto da Serra da Piedade morava o
respeitável Pe. José Gonçalves Pereira, a quem de toda parte acudia gente
para com ele fazer confissões gerais, e exercícios de piedade, Germana
deixou-se ir ficar, levada pelos seus. “Se até aí
a Serra da Piedade era frequentada, agora o foi muito mais, depois da chegada de
Germana, porque o desusado e raro fenômeno de se apresentar crucificada nas
sextas-feiras atraiu um imenso concurso de toda sorte de gente, uns movidos pela
devoção, outros pela mera curiosidade. “Espalhou-se
uma vez, pelos anos de 1813, que Germana morreria na sexta-feira da Paixão. Foi
isto bastante para atrair um imenso concurso de pessoas ao lato dessa Serra onde
está a Capela, apesar de estreiteza do lugar que é de muito poucas braças
quadradas, apesar de não haver nesse píncaro água que é levada de baixo
pelos que lá vão, e apesar de não acomodar a pequena casa de romeiro senão
umas 24 a 30 pessoas sem largueza. Foi tal o concurso que se pensa montara o número
dos concorrente a mais de 2 mil pessoas. Enganavam-se, porém, só muitos anos
depois é que Germana morreu. “Depois que o
Pe. José Gonçalves fixou sua residência no arraial de Roças Novas, nas raízes
da serra, Germana veio para este arraial. “Aí
permaneceu vários anos, até que o finando respeitável Pe. José Miguel
Pescitello levou Germana com sua irmã para o recolhimento de Macaúbas, onde
ele e o Pe. Luiz Antônio dos Santos, hoje Bispo do Ceará, ocuparam os lugares
de Procurador e de Cura. “Aí em Macaúbas
viveu ela até o ano de 1855 e mês de janeiro em que morreu. Seus restos
mortais lá descansam nesse recolhimento. “O fenômeno
raro que se admira em Germana era o seguinte:
“Da meia
noite de quinta-feira até a noite de sexta-feira ficava Germana desacordada,
estendida, com os braços abertos, pés um sobre o outro, cabeça inclinada para
um lado. Assim permanecia nesse estado, imóvel, sem tomar alimento nenhum, sem
proferir palavra. Somente havia uma interrupção nesse estado, e era no momento
de comungar. Quer na Piedade, quer nas Roças Novas, quer em Macaúbas, quando
Germana tinha de comungar na sexta-feira, era levada em uma esteira para o lugar
onde devia comungar. Aí ficava ela na posição mencionada. “Chegado o
momento de voltar-se para ela o sacerdote que devia administrar-lhe a comunhão,
era de espantar a ligeireza, presteza com que Germana de braços abertos se
punha de joelhos na extremidade da esteira. Recebida a comunhão, assim
permanecia algum tempo, até que indo cair, era ajudada por outras pessoas que a
estendiam em sua esteira, onde continuava sem alimento, sem palavra, sem outro
movimento. “Esse fato da
crucificação reproduziu-se constantemente sem falhar uma única sexta-feira
sequer pelo espaço de mais de quarenta anos e foi testemunhado por um número
sem conta de testemunhas de toda sorte, de toda parte, muitos e muitos dos quais
ainda vivem. Eu mesmo vi o fato da crucificação e da comunhão no ano de 1846
em que estive em Macaúbas”.
Fonte:
“Compilação da História de Caeté”, de João Nicodemos Vitoriano. |
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