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Bambu:
1.300 utilidades
A grande maioria dos produtos
industriais e artesanais produzidos em qualquer lugar do mundo enfrenta o
problema da escassez da matéria prima. E a escassez, pelas leis elementares da
economia, determina o custo da produção que pode torná-la viável ou não no
mercado de consumo.
Não é o caso do bambu,
abundante no mato e nas beiras das estradas, usado como proteção para encosta,
e desprezado exatamente por ser fácil. Se plantado e não cuidado, se torna uma
praga. Mas esta praga trabalhada, rende dinheiro.
As aplicações do bambu são
quase infinitas, pelo mundo inteiro: alimentação, calçados, construção pesada
(andaimes, pontes, casas), móveis, utensílios (cestos, porta-retratos,
talheres), xampu, remédio. Mais difícil do que descobrir o que se faz com o
bambu, é descobrir o que não pode ser feito com ele.
Um aficionado pelo bambu em
Caeté é Pedrinho Santos que o descobriu em sua própria propriedade, no Juca
Vieira, e vem explorando-o em uma indústria de fundo de quintal, produzindo uma
infinidade de peças de mobília a artesanato.
As peças são vendidas em
Caeté, Sabará e Belo Horizonte – Mercado Distrital e floriculturas. A produção
de bambu é suficiente para a manutenção do seu negócio por muitos anos. Tanto,
que Pedrinho fornece, de graça, o bambu para três ateliês da capital e pessoas
que trabalham com esta matéria prima.
Para ter o seu estoque
atual, da ordem de oito mil pés de bambu, Pedrinho teve que fazer muito pouco.
Na verdade, descobri-lo plantado há alguns anos com o mesmo objetivo que o DER
planta o vegetal na beira das estradas: contenção de encosta.
Além dos artefatos
produzidos com o bambu, Pedrinho passou a estudá-lo e a incentivar o seu plantio
e aplicação. O seu negócio gera, exemplo, trabalho que terceiriza para outras
pessoas, como aposentados.
Modismo? Frescura? Entre
nós, talvez um recente por uma cultura que tem pelo menos 3.000 anos entre os
orientais. O grelo do bambu é um ingrediente chic num prato oriental.
Na Internet, em uma única
ferramenta de busca encontramos 2.250 sites sobre o bambu – até onde avançamos,
nenhum em português. Você depara com calçados italianos, casas no México e
enormes indústrias de confecção de móveis e utensílios de bambu em países
europeus. Na América Latina, que mais usa o bambu é a Colômbia.
Bambu é bambu para os
leigos, embora os especialistas façam distinção entre espécies. Pedrinho
distingue dois tipos básicos que são o alastrante, como o bambu chinês, mais
utilizado em artesanatos, e o entouceirante. As diferenças ficam por conta de
sutilezas da aplicação.
Para o cardápio, o usuário
pode escolher o palmito (broto) de um ou de outro, dependendo do apetite. O do
bambu gigante chega a 3kg, enquanto o do bambu chinês, mais miúdo, fica em
torno de 500 gr.
Para quem conhece o bambu
como matéria prima para fazer cerca de galinheiro ou vareta de pipa, imaginá-lo
em uma construção civil é meio complicado. O respeito por ele, no entanto,
começa ao avaliar o seu currículo.
Além de uma história de
pelo menos 3.000 anos, o bambu tem a flexibilidade e uma resistência que pode
superar a do aço. Submetido ao tratamento elementar, natural, o móvel ou casa
construído com bambu não se sujeita a corrosão ou dano produzido pelo tempo.
Se ele está sendo comparado
ao aço, nem dá para equipará-lo com a madeira. O bambu resiste sem chorar a uma
temperatura de até 600 graus.
Uma escola
sobre bambu em Caeté
Além da produção de móveis
e objetos decorativos de bambu que expõe aos domingos na praça do Passarinheiro
em Caeté, aos domingos pela manhã, Pedrinho Santos procura conhecer mais e mais
sobre o cultivo e aplicação do bambu.
Ao contrário de outros
produtos do ramo, ele abre sua oficina a visitantes e procura difundir os seus
conhecimentos. Entre seus sonhos está a criação de uma escola sobre o bambu
para ampliar a divulgação que já faz sobre o seu cultivo e aplicação.
Para quem se interessar
pelo bambu, não vai faltar mercado de consumo, nem matéria prima. O bambu é
abundante em Caeté, particularmente na região de Roças Novas e Antônio dos
Santos. O que fazer com ele, também não é problema: são mais de 1.300
utilidades conhecidas, que vão do fabrico de xampu e talheres a casas e pontes.
Por ser tão abundante, nem
se cogita da viabilidade econômica de plantá-lo para vender. Quem quiser, vai
encontrá-lo na área rural e nas beiras das estradas e vias férreas, plantado
para contenção de encosta.
Quem não tem ainda uma peça
de bambu, pode resistir até comprar a primeira. A partir daí, vira freguês.
Outra vantagem para o
interessado é que o conhecimento sobre o bambu é cumulativo, sem risco de
desatualização quanto aos métodos de trabalho. O tratamento e forma de
trabalhá-lo são os mesmos de há 3.000 anos.
Sem-teto
ganham casas de bambu
Quem vê o bambu apenas como
coisa boa para fazer cerca de galinheiro, pode começar a vê-lo com outros
olhos.
No dia 10 de março, o
sisudo jornal Gazeta Mercantil, especializado em Negócios, dedicou extensa
matéria ao projeto da Bambuzeira Cruzeiro do Sul, escola e centro de pesquisa
na área de desenvolvimento de técnicas alternativas de construção, movelaria e
artesanato em fibras naturais.
Fundada em 1996, a
Bambuzeira agora vai produzir pequenas habitações em bambu para a população
sem-teto de Belo Horizonte.
O projeto intitulado
"Ser-Sonho Encantado Realizado" buscará, segundo Flávia Reis,
assessora da escola, beneficiar famílias que vivem nas imediações do Barro
Preto, bairro onde está localizada a escola, na área central de Belo Horizonte.
A reportagem de Ana Luíza
Herzog, para a Gazeta, traz interessante exposição de Flávia. Segundo ela, as
casas de bambu poderão ser montadas e desmontadas em três módulos - teto, piso
e paredes-, e por isso poderão ser transportadas facilmente.
As pequenas casas de bambu
serão construídas para os sem-teto através de parceria firmada entre ex-alunos
da escola Bambuzeira Cruzeiro do Sul, desabrigados e arquitetos, que são
responsáveis também pelos projetos das habitações.
"Os ex-alunos e
arquitetos colocam a casa de pé e os desabrigados participam da etapa final,
colocando portas e janelas", explica Lúcio Ventania, fundador e professor
da escola pela qual já passaram 250 pessoas interessadas em se formar na arte
de trabalhar com o bambu.
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