Eu e Xambinho

Xambinho é o cãozinho de estimação da casa. Hoje por volta das 18h ele entrou pela redação em busca do meu colo e, como eu estivesse trabalhando, ele se deu por satisfeito em se aconchegar junto às minhas pernas. Uma patinha levantada, os olhos fixos no espaço, silencioso e todo trêmulo. Eu o entendi. Nós sofremos do mesmo mal.
Xambinho é um cãozinho pequeno (não pergunte a raça porque não entendo nada disto), muito dócil com as pessoas com as quais ele simpatiza, mas uma fera com quem ele não conhece ou não vai muito com a cara. Ele, acho, nunca se viu no espelho, não sabe a altura que tem e, por isso, não mede consequências e não tem medo de tamanho de nada ou de ninguém.
O que sei de cães é que eles têm uma audição muito apurada. A do Xambinho parece ser dez vezes maior. Ele percebe alguém simplesmente encostando no portão ou qualquer voz diferente dentro de casa. E aí, é um Deus nos acuda.
Mas há uma coisa que ele não suporta, que é barulho. Talvez por causa desta alta sensibilidade auditiva dele. Queima de fogos o coloca pra correr. Ele se enfia na casinha, corre pra dentro de casa ou procura um colo. Todo trêmulo. E foi o que se deu hoje.
Mas não havia aquele foguetório de Dia de Nossa Senhora Aparecida, nem da Festa da Padroeira, nem de comemoração de título (o do Atlético ainda demora algumas rodada… He, he, he….). Pra dizer a verdade, não havia foguete algum.
Havia a rotina normal da cidade. Naquele momento se misturavam os sinos da igreja, com três carros de som com propaganda de candidatos se cruzando na rua, além do movimento de carros e motos, buzinas e gente gritando na rua.
A pacata e provinciana cidadezinha de interior é um Woodstock permanente. Talvez pra se parecer uma megálopole… Onde eu e Xambinho já estamos com o mesmo mal: neuróticos e estressados…
Aliás, me lembrei de Juiz de Fora. Onde a gente gozava o pessoal. Dizem que lá, quando dois vizinhos se encontram na avenida Rio Branco, fazem de conta que não se viram… Pra alimentar a idéia de que é cidade grande… Como Caeté é muito pequena pra isso, se desfaz a frustração de ser pequena no grito…
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Sem calcinha

Eu sou tremendamente ciumento e posso até me tornar perigoso quando sou atacado por uma crise neste nível emocional. E vou confessando que não gostei nada de ver aquela foto da Juliana Paes sem calcinha. Gente, aquele pedação de mulher, morena, com as curvas em cima, um vestido fininho e, por baixo dele, nada. A Juliana não podia fazer isso comigo… Eu já havia prometido que dava pra ela casa, comida, roupa lavada e tudo o que eu conseguisse ganhar por mês…
A Juliana Paes é das raras pessoas que conquistam meu rochoso coração. Eu gosto dela de graça. Uma mulher simples, humilde e, até onde vejo, batalhadora. Daquelas que trabalham e não têm muito tempo para ficar fuxicando para sair na midia ou dando a bunda pras câmeras para ganhar espaço promocional.
O estardalhaço que a foto da Juliana causou é compreensivo, legal e justo. A primeira definição de notícia em qualquer manual de jornalismo é “o inusitado”.
Juliana estava trabalhando, dançando, alegre, feliz e descontraída. Exibia um vestido de tecido fininho e, para não deixar marcas, abdicou-se do uso da calcinha. O excesso de entusiasmo da Juliana no palco, a levou a um rodopio deixando à mostra o que não estava no script. Mas que também não tem problema nenhum. Ela tem, a mulher do presidente tem, a mãe do Papa tem, a vaca tem e (exceto os que não gostam) todo os outros sabem o que é.
Mas não é todo dia que se pode ver aquela jóia que a Juliana esconde e que num momento de bobeira estava fora do baú..
O fotógrafo teve um daqueles momentos que não acontece muito mais que uma vez na vida. Só pra câmara armada ele.
Desta vez eu vou perdoar a Juliana. Mas vou avisando que se eu pegar ela sem calcinha outra vez, não respondo por mim. Vou sapecar umas boas palmadas na bunda dela…
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Os bichos no poder

Estou achando que a obra de George Orwell, A Revolução do Bichos (1945), está a clamar por uma reedição no Brasil, onde a fábula vai ganhando atualidade.
A história de Orwell se passa na Granja do Solar, onde os bichos decidem assumir o poder e depois desvirtuam os objetivos da revolução deles. Uma casta, a dos porcos, embevecida e seduzida pelo poder, tende para a tirania e decide que na nova ordem democrática “todos são iguais -porém, alguns (eles, claro) são mais iguais que os outros”. Melhor, todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais.
A fábula é uma sátira ao regime dominante na então União Soviética, onde uma casta, do partidão, se agarrava ao poder e se mantinha nele às custas de medidas totalitárias, perseguições, expurgos, desmandos. Algo como os mais fracos chegando ao poder, sendo tragados por ele e, drogados, são corrompidos (ou se corrompem) e corrompem e destroem até a mãe para se sustentar nele (no poder).
A Revolução dos Bichos insiste em não sair da minha cabeça ao longo destes dias em que mais um escândalo palaciano agita Brasília e o país, quando dois sujeitos são presos com R$ 1,7 milhão (entre reais e dólares) numa negociação de compra e venda de um dossiê que serviria para massacrar o adversário e assegurar, de vez, a reeleição de Lula e a manutenção do PT no poder.
Vai crescendo, a quinze dias das eleições, a lista dos ministros, assessores diretos de Lula, dirigentes do PT, envolvidos em atos de corrupção, formação de quadrilha, etc. Sem contar os que estão, teoricamente de fora do palácio, como Marcos Valério, por exemplo. E os citados, na família, no governo, no PT, no Congresso, por supostas participações em atos ilícitos.
Os tempos são outros, mas como há semelhanças entre o cerne do regime soviético, a revolução dos bichos e o atual grupo dominante no Brasil hoje. O proletariado chega ao poder, carregado pelo povo iludido, sem ver a aliança que se fazia com a direita (PT/PL), para manter o mesmo estado burocrático e até mais neo-liberal que o combatido, rezando minuciosamente na cartilha do FMI; pega gosto pelo Palácio e pela Granja do Torto (talvez um nome diferente para a Granja do Solar); e, então, esta nova elite ex-proletária, passa a usar de todas as armas para se manter no trono -como já havia feito antes para sentar-se nele.
O estado soviético era mais ou menos isto: uma elite burocrática desfrutando das delícias do poder, sustentada pelo Partidão. Na União Soviética, na Granja do Solar e no Brasil. O dossiê da semana, tem o sabor da munição para a propaganda contra os “inimigos do Regime”. Na União Soviética, na Granja do Solar e no Brasil.
A revolução proletária na URSS começou com sangue. A dos bichos terminou em sangue. Na URSS os proletários sonharam com as forças de Nicolau 2º no auge dos expurgos stalinistas. Na revolução dos bichos, os porcos lembram dos homens, aos quais se opuseram.
Tomara que no Brasil não se sintam saudades de ninguém, mas dos ideiais da ética, do trabalho, da justiça social, da honestidade, da construção de um país digno.
O que parece também estar ainda distante.
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O Maior Cassino do Mundo

Eu não sou, com certeza, um dos concorrentes ao prêmio acumulado da Megasena. Hoje me dei conta de que no mês de setembro ainda não consegui fazer uma única aposta em loteria. Um hábito que sempre repeti às quartas e sábados, com meus minguados R$ 4,50 apostados em três surpresinhas. Aposta que guardo dobrada e só abro depois do resultado. Pra num dá peso. Não sei se eu tenho olho gordo…
A minha ausência na procissão dos apostadores não se deve exatamente à falta de dinheiro. Mas à falta de possibilidade de apostar. Como eu ainda não acertei nem uma vez, tenho que trabalhar pra sobreviver e não deixar minha mulher e meu filho morrerem de fome. Não posso, irresponsavelmente, ficar horas na fila intermináveis que estão vigorando nas Casas Lotéricas.
Quem está no exterior, ou aqui mesmo no Brasil mas fora do mundo, fica sabendo que as filas não têm sido de apostadores, embora estas casas, como o nome sugere, seriam para isto. As filas são para pagamento de água, luz, telefone, boletos, tributos, depósitos e saques em contas da Caixa (Econômica Federal). Mas e a Caixa (Econômica Federal), o que está fazendo?
O novo sistema apregoado e implantado pela Caixa é lento, tanto nas lotéricas, quanto na internet, quanto nas próprias agências. Nas lotércias, muitas vezes, os caixas são mais lentos ainda, por não serem exatamente caixas.
Um dia da semana passada me aproximei entusiasmado de uma lotérica e vi que a fila não estava saindo para o passeio. Apertei o passo. Era minha oportunidade de apostar… Quando cheguei na porta, a lotérica estava vazia, com um aviso destacado: “Não tem nada funcionando. Nada”… (o aviso pode parecer indefinido, mas é muito claro para qualquer pessoa comum. O sistema caiu de vez…
Não me surpreende que a Fecomércio, de São Paulo, defenda a fusão da Caixa (Econômica Federal) com o Banco do Brasil. Não vi a proposta da Fecomércio e não quero ser leviano. Mas eu endosso a proposta da seguinte forma. O Banco do Brasil assume a parte banco da Caixa (Econômica Federal). E a Caixa continua sendo o grande cassino que já virou há muito tempo com duas loterias por dia (são 14 sorteios das diversas loterias por semana).
Talvez até seja mesmo com vistas a isto que ela hoje fixa a marca só como Caixa. O Econômica Federal, já foi pro saco. Como banco, o atendimento está péssimo. E o mix de produtos, banco mais cassino, está atrapalhando os produtos lotéricos. Pode virar Caixa, com o slogan megalomaníaco, como é de praxe nesta linda terra de Cabral: “O Maior Cassino do Planeta”.
É o desenvolvimento tupiniquim criando novas tecnologias… Banco vira cassino, lotéricas e correio (Bradesco) viram banco. É a maximização dos lucros e a mediocridade dos serviços… Quando é empresa privada, quebra. Estatal tem o povo pra bancar…
Quem acertar a megasena pode cobrar da Caixa o prejuízo… São R$ 4,50 por sorteio que deixei de por no bolo.
PS: Uma eventual fusão da Caixa com o BB não alteraria nada para o usuário -fica tudo naquela mesma bela qualidade de serviço estatal…
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Eu quero minha mãe!

Eu trabalho cerca de 16 horas por dia, incluindo o sábado e domingo. Como estes dois dias são inúteis, a minha carga de trabalho da semana dá uma média de 22h24min por dia útil. Ou seja, me sobram 1h36 para café, almoço, janta, banho e um cochilo.
He, he, he…. Bem disse Roberto Campos: estatística é que nem biquini; mostra tudo mas tampa o essencial…
Minhas contas aí são só para justificar que, de qualquer forma, não me sobra tempo para ver televisão. Quando vejo é para exercitar meu masoquismo. Me irrita, largo pra lá e volto pro trabalho.
Talvez por ver pouco televisão, eu não esteja compreendendo suficientemente os avanços. Ainda estou agarrado lá no Chacrinha que dizia que na televisão nada se cria, tudo se copia. Quando eu encontrar com ele lá em cima, vou acrescentar pra ele: …e quando cria, cria mal…
Enquanto janto, vejo um trecho do Jornal Nacional. Fátima Bernardes em primeiro plano e Ouro Preto lá no fundo. Pensei que tivesse havido algum novo incêndio na cidade que é Patrimônio da Humanidade… Graças ao Poderoso, não… É uma tal caravana do Jornal Nacional que percorre o país. Percorre, fazendo o quê?
Na tal matéria que vi, era sobre o desemprego na Região Sudeste (não em Ouro Preto). A âncora chama um repórter lá no Rio de Janeiro. Depois, olhem, chama outro na Lagoa da Pampulha, Belo Horizonte. O jornalista ali, lê uma análise do desemprego na Região Sudeste, incluindo índice de Gine (é isto mesmo?) e outros termos do belo economês. No meio do discurso, uma reportagem em Santana do Parnaíba (sei lá…), em São Paulo e outra lá do Sul de Minas (quase São Paulo…), em Poços de Caldas…
Levantei com o prato mão… Cacete, o que tem a ver nesta história Ouro Preto ou o repórter na Pampulha, em Belo Horizonte? Eu quero minha mãe! (aliás, o que minha mãe tem com isso?!)
Mas estas coisinhas eu relevo. O que me tira do sério mesmo são os narradores de futebol na TV. Gente, este pessoal até hoje (só a Globo já tem 40 anos…), ainda é treinado ou buscado nas rádios… Não é possível. É uma tremenda falta de respeito. Tá certo que eu uso óculos, mas dá pra enxergar direitinho cada lance.
Os caras (praticamente todos) narram o jogo como se fosse uma transmissão radiofônica. Não param de falar um minuto e as descrições são absurdas. “A bola passa raspando a trave”, quando o telespectador está vendo que ela foi batida da marca do pênalti e passou a pelo menos cinco metros… Duro é na cobrança de pênalti que o goleiro vai na bola e o narrador consegue ver “bola prum lado, goleiro pro outro”…
O pior, mas frequente, e mais abusivo é o uso dos verbos. A bola “bate” no zagueiro e o narrador diz que “tira” o zagueiro; um jogador “chuta”, o narrador diz que “cruza”; um jogador “toca” para o companheiro, o narrador diz que “cruza”…. Os narradores de TV passam a impressão de que têm uma intimidade antiga com cada jogador, sabendo com convicção o que cada um fez, faz ou vai fazer. Um jogador com a bola levanta a cabeça no meio de campo e o narrador já antecipa que ele vai esticar na direita, na esquerda ou no gol.
Lembro o primeiro narrador de futebol que conheci: Fernando Sasso. Até onde sei, ele nunca trabalhou em rádio. Fazia as narrações para a TV Itacolomi, de Belo Horizonte. Era o cara da mídia TV! Sua narração se limitava a apontar o nome do jogador de posse da bola e informar sobre algum fato controverso….
Fernando Sasso sabia que o jogo estava sendo transmitido pela televisão e que as pessoas do outro lado estava vendo o jogo… Não precisava ele descrever…
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Pelada

Semana passada eu vi o Gil, jogador do Cruzeiro, dar um tapa na cabeça do Andrade, do Vasco, num lance que já não tinha nada a ver e ser expulso. Domingo, Reinaldo, do Santos, depois de cometer uma falta, com o jogo parado para a cobrança e perto do árbitro, chuta um jogador adversário e é expulso.
São lances que os cronistas esportivos costumam chamar de infantilidade. Eu chamo de irresponsabilidade. São jogadores profissionais, num campeonato nacional, e não há como perdoar esta síndrome de Zidane -um fato isolado de um jogador que é cabeça-quente mesmo e tem até crédito para pisar no tomate de vez em quando. Muito mais que um Gil ou um Reinaldo.
Falta, cartão amarelo, cartão vermelho, fazem parte do jogo. É o caso do cartão vermelho do goleiro da Portuguesa, no final da partida contra o Atlético Mineiro, pela série B. Ele era o último homem, batido por Marinho, e o impediu de avançar. Foi expulso. E poderia ter garantido o resultado que era favorável para o seu time àquela altura.
Agora o que anda acontecendo em campo é, além de irresponsabilidade, o reflexo da ruindade do futebol brasileiro. Dói ver um jogo de futebol, como, por exemplo, Botafogo x São Paulo domingo. Falta tudo. Habilidade para dominar uma bola, para sair com uma bola (reveja com Scheidt perdeu a bola que original o gol de empate do São Paulo), para cruzar uma bola, para virar um jogo, para concluir. Os fundamentos do futebol vão todos para o cacete, na mais completa pelada que fica abaixo do nível de uma confraternização de solteiros x casados.
Quer dizer, o que falta mesmo não é responsabilidade. Não é caso de irresponsabilidade. É falta de recuso mesmo…

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Mesmice

Eu era criança pequena lá em Pitangui, num tempo em que a cidade parou, todo mundo ficou olhando para o céu assustada (boa parte rezando), quando por lá passou o primeiro helicóptero. Estranho aquela máquina que até parava no ar.
Era um tempo também que não havia energia elétrica suficiente para abastecer as residências 24 horas por dia. A luz chegava por volta das 6h. Era quando minha mãe ligava o rádio, provavelmente na Rádio Inconfidência, na Hora do Fazendeiro.
As duas coisas me exerciam um fascínio. Eu queria explicar como a luz chegava e como o rádio falava. Nos meus quatro, cinco anos, pesquisava o rádio, olhava atrás dele, tentava, em vão, encontrar de onde vinha a voz que eu ouvia.
Uma pesquisa que durava até perto das 19h, quando se avizinhava a Voz do Brasil. Aí minha mãe desligava o rádio. Não podia esperar começar o programa oficial porque, segundo ela e os vizinhos, era proibido desligar o rádio durante a Voz do Brasil. Naquele período tinha luz, mas não dava para ouvir rádio. Tinha que esperar passar as 20h, porque aquela lamúria ninguém aguentava.
A imagem me bate agora, quando são 22h27, na cidade de Caeté, Região Metropolitana de Belo Horizonte.. Mais de quarenta anos são passados e, com meu no-break clamando pelo Flávio, não suportando o computador adicional que coloquei na rede, me obriga a ficar dançando por volta das 17h. Aqui, em Caeté, a energia neste horário é escassa. Não dá para abastecer as residências, como no tempo que eu era criança pequena lá em Pitangui.
O problema é que aqui é pior. Passa o horário crítico, das 17 até 19 horas. Mas o desespero continua. Quero trabalhar, mas a Cemig não deixa. São 22h27. Imagino que todo mundo já tomou banho, como é segunda-feira as casas noturnas estão fechadas, é férias e não tem escola funcionando, não há relâmpago ou sinal de chuva, mas o “pique de luz insiste”.
Minha frase de efeito que não desgruda da minha mente por estes dias é o título do livro que reli semana passada e ontem passei para Daniele: “Tudo que devia saber na vida aprendi no Jardim de Infância”.
Passam-se os tempos mas tudo parece tão igual, com nuances de maquiagens… A Voz do Brasil, a energia pouca e pra variar, o disco voador, a “Hora do Pagodeiro”… Em Pitangui faltava luz de dia, em Caeté há escassez de luz de noite…
PS: Acabo fazer o post, vejo um erro de concordância, clico no edit e o computador desliga. São 22h46, novo pique. Meu Deus, será que a Cemig será a mesma daqui a 40 anos?!
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Disco Voador

Há cerca de 13 anos eu fiz pra mim mesmo uma confissão de fé na hipocrisia do ser humano. Passei a ver as pessoas em geral, como animais -como de fato o somos e não admitimos -, e capazes de qualquer coisa, não só para saciar seus instintos básicos (como, de fato, fazem todos os animais), além de atropelar a própria mãe por vocações menores, como riqueza e poder.
Pode ser que este raciocínio tenha surgido na minha cabeça em alguma momento de baixo astral. Mas nunca o abandonei por isso e, ao longo dos anos, tenho reforçado-o com minhas observações sobre o comportamento humano.
E não tenho do que reclamar. Ao viver com a premissa de que qualquer pessoa é capaz de qualquer ato imprevisível, como a traição, por exemplo, deixei de ter motivo para me decepcionar com as pessoas. Nada de horroroso que se diga sobre alguém que conheço muito e passo a admirar, não me espanta. Como na historinha do sapo e o escorpião, a “natureza” acaba emergindo.
Um outro ganho que conquistei é de me emocionar com um gesto nobre de alguém, inesperadamente, e querer agora conseguir ver que nem tudo está perdido.
Dia destes eu estava na fila de uma “lotérica” (que não faz loterias) para pagar uma conta de luz. No caixa estava um menino com as mãos cheias de contas (água, luz e telefone; do mês e atrasadas). A simplicidade do menino estava medido pelas contas. Todas as contas somadas passava pouco de R$ 100,00 -menos da metade da única conta de luz que eu tinha na mão.
Na hora de contar o dinheiro a mulher do caixa disse ao menino que estava faltando R$ 1. O menino pensou e aceitou a sugestão de ficar uma conta de água para pagar depois.
Ao ouvir a sugestão e o de acordo triste do menino (que teria que ir em casa -sabe-se lá onde-, e voltar), uma outra senhora, jovem, de cor (acho relevante dizer que ela é, como se diz agora, afrodescendente), intercedeu e pediu que quitasse as contas e acrescentasse na conta que ela pagaria em seguida.
O menino, também escurinho, virou a cabeça e ficou com ela erguida olhando e admirando a jovem sem saber o que dizer, nem mesmo como agradecer.
E eu pardo (com a veia carregada de um misto de sangue português da minha mãe e negro do meu pai), tanto quanto o menino, parecia estar, de repente, diante de um disco voador.
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Hexagero

Eu fico imaginando se tivéssemos a mesma competência que temos (ou imaginamos ter) no futebol, nas demais áreas do conhecimento: pesquisa e desenvolvimento, produção, lazer, saúde, educação. O Brasil iria para a cabeça também (penta, hexa, hepta) em condições de vida, educação, meio ambiente, agropecuária.
Teria sido muito bom que nos últimos 36 anos tivéssemos saído do chavão de “país em desenvolvimento” (que continua sendo repetido na Voz do Brasil) para o do respeito internacional, de rivais competitivos como os tigres asiáticos, com economia que nem existiam ou, no máximo, eram também “economias em desenvolvimento”, quando levantamos o tri do futebol no México, e que fornecem hoje o ganha pão para milhares brasileiros (como garçons, jardineiros e até no ramo da prostituiçao).
Mas no futebol parece que somos mesmo os maiores, insuperáveis, ainda que internamente tenhamos só peladas nas séries A e B do Brasileiro. Não vi em toda minha curta existência uma seleção brasileira indo à Copa do Mundo já com o título nas mãos, só para registrá-lo no cartório e trazer o caneco.
Está até chato. Ninguém contesta convocação ou eventual não convocado, os astros são os maiores, quem está no comando técnico não tem a menor importância.
Pelo menos por agora ninguém comenta quantos integrantes estão na delegação ou quanto a seleção está gastando. Pode se hospedar no México, no Caribe ou na Suécia ou na Suiça, não tem a menor importância. O hexa está na mão e é hora de comemorar.
O noticiário da Copa fica até sensacional. Já que não notícia ou fofoca, não há problema num grupo perfeito, o esquema de jogo é irrelevante já que somos mesmo superiores com Dida, Cacá, Ronaldinho & Cia, os programas de esportes se ocupam de mostrar os locais dos jogos, as belezas das cidades alemãs, a euforia das bandeiras verde-amarelas espalhadas por todo o mundo -já que em todo o mundo há brasileiros buscando o pão que não é tão farto aqui quanto a competência para o drible com ou sem bola.
Pudéssemos ser ricos como a Alemanha! Gente!, gastar tanto dinheiro, investir tanto, só para o churrasco do hexa brasileiro!
Como eu gosto de jogo, de desafio, de confronto, de competitividade, confesso que esta Copa não está me entusiasmando muito não.
Lembro Garrincha, na Suécia, calado, num canto, depois da conquista do primeiro dos “seis” títulos: “Num tô vendo nenhuma graça… Um campeonato que tem cinco jogos e nem tem returno…”, se rebelou ele.
E eu sou assim, meio rebelde. Um campeonato com 24 times correndo atrás da bola à toa, já que o campeão já está eleito… Claro que vale a festa para o Brasil comemorar o hexa. Pelo que estou ouvindo, os jogos vão ser só festivos. Não tem mesmo adversários para o Brasil.
Aliás, como a Fisa, a Fifa também poderia mexer no regulamento para equilibrar as coisas. Nas partidas contra o Brasil, os adversários já entrariam ganhando de 3×0!
Tomara que tudo se dê conforme a expectativa e que não esteja havendo nenhum hexagero. Mas meu avô conseguiu enfiar na minha cabeça dura que não se deve contar com ovo no fiofó da galinha. E por vias das dúvidas, sempre, em todas as hipóteses, mesmo quando meu “frango” (o Galo tá encolhendo…) tá ganhando de cinco, eu só comemoro depois do apito final.
Jogo é jogo… Desde que não seja marmelada…

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