Eu sempre disse com orgulho que não sou racista, não tenho preconceitos e não discrimino nada, nem ninguém. E, sinceramente, eu repetia isto tanto que até eu mesmo passei a acreditar. E com muitas histórias para contar, além de razões fundadas para ser um ente de outro planeta, que não se criou no meio destas penimbas culturais.
Pra começo de tudo, eu nasci pobre -além de pelado, careca e sem dente como todo mundo. Trabalho desde os cinco, seis anos de idade, para ajudar minha mãe a não deixar faltar o que comer para ela, eu e meus dois irmãos. Logo, nunca tive razão para me considerar diferente ou superior a ninguém. Preto, pobre, comunista, estudante, prostituta, tudo é gente que nem eu.
Agora, depois de velho, começo a desconfiar que tenho alguns preconceitos sim. Me flagrei me esquivando de duas filas nos caixas eletrônicos, porque tinha duas louras nestas filas. Pensei: aqui vai agarrar… Pra ser sincero, observando o andar da carruagem… melhor, da fila… vi que as duas filas agarraram mesmo… Nas louras!
Mas o danado mesmo tem sido editar as fotos que faço na rua para a coluna Paparazzi do Acontece. São fotos tiradas aleatoriamente, na rua, de pessoas, e publicadas, sem legenda, sem texto algum. O objetivo é nobre e simples: colocar no jornal pessoas que, pelo menos grande parte delas, nunca se veria num jornal.
No início eu peguei uma barra. O jornal saia e, quase todas as semanas, tinha ligações de gente brava, porque tinha sido fotografada na rua. Passado mais de um ano, a coluna caiu no gosto dos leitores (é a primeira página de qualquer leitor) e acabaram-se as reclamações.
A aceitação da coluna, no entanto, não foi um ato natural, decorrente do tempo só não. Eu tive que descobrir que as reclamações vinham basicamente de gente pobre e mulher feia. Hoje eu ainda tenho pavor de selecionar uma foto de alguém de um destes dois grupos. É encrenca na certa.
Quando eu diagnostiquei o problema, a solução foi natural. A partir da coluna seguinte entrei propositadamente com pessoas que também costumavam estar na coluna social, autoridades, gente importante flagradas fazendo coisas que qualquer pobre e mulher feia também faz, como andar na rua, ir ao supermercado etc.
A coluna que até então estava sendo considerada como coisa de pobre, ganhou importância.
O que ainda não achei solução é para mulher feia. Se faço a coluna só com gente feia, fica um horror. Quando entro com mulheres bonitas e gostosas, as feias ficam piores ainda.
Eu tenho aliviado minha consciência deste mal súbito, acreditando que o preconceito não está em mim. São as circunstâncias. Afinal, pra mim, mulher continua sendo mulher, feia ou bonita. Até porque, primeiro, mulher feia e mulher bonita, é sinônimo de mulher pobre e mulher rica. Segundo, porque a diferença entre mulher feia e mulher bonita, some depois da terceira dose.
Preconceito
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