Já tendo passado dos 40 há muito tempo, sou absolutamente cético com qualquer coisa neste país. Há uma distância infinita entre o país rico, que já não deve um tostão ao FMI, da moeda forte que peita o dólar, das pessoas pobres e humildes que o estado está proporcionando três refeições por dia, e a realidade crua. A realidade crua, com a qual se depara quando se precisa encará-la para vê-la pelos próprios olhos e não pelos olhos das autoridades nos podereres.
Hoje eu pouco escrevo, porque não consigo. Não sei por onde começo, nem onde termino. Veja bem, nunca na história deste país minha cabeça esteve tão cheia, a ponto de não conseguir desentranhar os assuntos e picá-los para escrever por partes. Ou por capítulos.
Há cerca de 20 anos perdi uma irmã pela incompetência e negligência do sistema de saúde. Com uma pneumonia, estava internada no único hospital de Caeté. À noite, num final de semana ela passou mal. O médico de plantão não estava, não foi localizado. Ela precisava de um médico, uma punção, mas o médico provavelmente estava em alguma buteco, tomando a cervejinha com os amigos e falando de política -como o que estava de plantão gostava. Minha irmã sucumbiu diante da dor e da falta de assistência, dentro de um hospital
Ela, com 28 anos, deixou dois filhos pequenos. Um casal. A filha, agora já casada e com aquela mesma idade, teve problema na sua primeira gravidez. Ainda no início da gravidez, passou mal, sentia muita dor. Foi atendida no mesmo hospital que a mãe. Ela estava com um sangramento interno. Precisava de uma cirurgia imediata, mas precisava de um ultra-som. Foi para Sabará, depois para Belo Horizonte. De hospital em hospital, de clínica em clínica, sem poder ser atendida porque não estava agendada e as agendas estavam todas cheias.
Quem a acompanhava era a avó, que pedia em cada lugar, com a humildade sertaneja: “Minha filha, dá um jeito de atender a menina senão ela vai morrer. Eu vou pagar. Não tô pedindo pra fazer pelo Sus…”. A resposta era a mesma. Sem agenda, não tem jeito.
Em um hospital, no bairro Santa Efigênia, minha sobrinha já desabava. “Eu não aguento mais, me atende pelo amor de Deus!”, suplicava. Um médico que entrava, talvez iniciando sua jornada, viu a cena e pediu a assistente que mandasse subir com a menina imediatamente. Ela pôde ser atendida, fazer os exames e voltar a Caeté para ser submetida a uma cirurgia e extração de uma trompa.
No carro do marido, por todo o dia dirigindo e desesperado com a situação da mulher, corriam (ele, ela e a avó) o risco de um acidente na estrada, envolvendo outras vítimas que nem sabiam o que estava acontecendo.
No dia seguinte à cirurgia, um dos médicos da equipe que a operou, pediu que ela rezasse muito. “Foi Deus quem te salvou…”.
Minha mãe vai me contando o drama e eu ouvindo, com o olhar perdido longe, ouvindo e vendo Che Guevara em minha frente: “Se você é capaz de se indignar com uma injustiça cometida contra uma pessoa em qualquer lugar do mundo, então nós somos companheiros…”. A frase é recorrente na minha memória…
Che sumia e eu me via aos cinco anos, em Pitngui, quando minha mãe, viúva, me dava os trocados para tentar comprar um pouco de feijão. Eu rodava de armazém em armazém, com o dinheiro na mão e nenhum tinha o feijão…
Mentalmente vou caminhando pelos hospitais e vendo as pessoas sofrendo e muitas lamentando não ter dinheiro para não precisar da assistência do estado, ignorando que mesmo que elas pudessem pagar não teriam o atendimento adequado e ainda ficariam zeradas para, pelo menos, um sepultamento digno…
Vejam bem, nunca na história deste país tivemos tanta necessidade da atenção especial de Deus. Não se iludam.
Fé em Deus
Esta entrada foi publicada em Sem categoria. Adicione o link permanenteaos seus favoritos.