Há coisas que você sabe que existem, que acontecem no mundo inteiro, mas parece uma descoberta quando se dá conta de que é real, que é aquilo mesmo. Em 94 conheci o empresário José Alencar, então presidente da Fiemg. O acompanhei por um dia em Caeté. Ele inaugurava instalações do Sesi. Um pretexto para para a campanha política fora de época. Ele era um virtual candidato a governador.
Um cara tranquilo, sereno, atencioso. Parecia um destes políticos que não tem compromisso com nada e que passa as manhãs, dias, anos, enrolando, pedindo voto, sorrindo, carregando menino no braço, sem ter nada para fazer na vida. Até o pagamento é depositado na conta. Há uma centena de assessores para enrolar os outros eleitores que eventualmente procurarem por ele.
O Zé Alencar não. Era o dono de mais de uma centena de empresas, presidente da poderosa Fiemg e podia tirar um dia, uma semana, sem prejuízo dos seus negócios.
Eu ficava ouvindo o Zé e imaginando que eu, que não tinha nenhum CGC (hoje CNPJ), tava até com meu CPF cancelado sem me fazer falta alguma, um aspone, trabalhava 16 a 18 horas por dia e não conseguia tirar uma hora para cortar cabelo ou aparar as unhas.
E vejo o Zé Alencar, como vejo o Sílvio Santos, o Antônio Ermírio de Moraes, o Bill Gates, grandes executivos planetários que têm os maiores negócios do mundo e viajam, fazem palestras, participam de eventos, animam longos programas de auditório, escrevem artigos para jornais, fazem lobby, participam de lançamentos de produtos, mantêm contatos com a imprensa, dão entrevistas. E os negócios deles estão funcionando, crescendo, se desenvolvendo, incorporando novos produtos, novas empresas, novos mercados.
Eles não são vaidosos, nem relapsos. Têm equipes, assessores, sistemas administrativos, financeiros e contábeis seguros em seus empreendimentos. É legal ver um Bradesco, com sei-la-quantas agências espalhadas pelo país, em lugares que nem existem no mapa, mas que funcionam e estão sob controle do “sistema”. Lá dentro tem um monte de dinheiro, contas de dezenas, centenas, milhares de correntistas, além de empréstimos, financiamentos. Atrás da mesa, muitas vezes, um gerente com cara de bocó que sabe fazer duas continhas de matemática financeira: de juros simples nas contas a pagar e de juros compostos nas contas a receber. E o Banco, a Instituição, cresce, acumula lucros, bate o exercício anterior, amplia, expande. O sistema controla…
São sistemas, hoje, informatizados e alimentados por pessoas, profissionais, empregados selecionados, treinados e enquadrados dentro de uma cultura institucional que inclui o uniforme, a linguagem, o incentivo, a lealdade.
Nada muito diferente de uma Escola de Samba. Imagine a administração de uma escola de samba, a diversidade de profissionais envolvidos, do nível básico a pós-graduado, da costureira aos arquitetos e autores dos efeitos especiais; as estrelas envolvidas, a parafernália e alas a serem postas disciplinadamente na avenida, sambando ao ritmo do samba, na ponta do cronômetro…
Eu fico pensando nisto tudo e olhando no jornal qual foi a última grandiosa empresa que quebrou por falha no sistema. Não vejo mais do que novos nomes surgindo no mercado, competindo, um novo Sol tentando brilhar sobre a Antártica e por aí a fora.
Mas tudo isto eu entendo perfeitamente. Desde as grandes organizações fincadas sobre administração profissional que surgiram, muitas vezes, antes das faculdades de administração quando administrar era, no cerne, só o que continua sendo: bom senso. Claro, se profissional, tem também alguns instrumentos auxiliares com um método DuPont ou um conceitozinho sofisticado como marketing, mídia, 5S e outras coisas absolutamente dispensáveis mas que se aplicados ajudam.
Há organizações maiores que qualquer qualquer estado ou empresa que cresceram e acumularam riquezas, com uma rede planetária eficiente, centenas de anos antes de qualquer conceito de administração. Como a Igreja Católica que nasceu naquele diálogo de Jesus Cristo com Pedro, o Pescador.
Aliás, quando vi o 5S pela primeira vez e alguém querendo me convencer que ele foi importado do Japão, olhei desconfiado… Juraria por minha mãe que aquilo tinha sido inventado pela minha mãe ou pela minha mulher… Qualquer dona de casa aplica aquilo sem nunca ter ouvido falar naquilo…
Bão… Agora o que eu não entendo e nunca vou entender é porque um Estado -como o brasileiro, por exemplo, é tão complicado, tão burocrático, tão caro, tão dispendioso, cheio de furos, furtos, corrupção e que se perpetua assim tão descaradamente, sem nenhum controle, alimentado diariamente, hora a hora, segundo a segundo, por cada cidadão comum, trabalhador, empresário, que parecem, todos, esconder uma cumplicidade, uma conivência covarde com esta ineficiência e roubalheira.
Já não é hora de mudar isto? Organizar esta bagunça e criar um estado, como uma organização profissional, que administre este grande condomínio, arrecadando o que é devido por cada um e aplicando racionalmente no interesse comum, inclusive na remuneração dos responsáveis por esta administração?
Por quê há tanto interesse em defender o Estado da forma como ele está (des)organizado? Claro, qualquer cidadão comum teria a resposta na ponta da língua: para facilitar a corrupção, o descalabro, a sustentação de milhares de políticos ativos (o que não quer dizer trabalhando, mas ocupando um cargo eletivo), outros milhares inativos (literalmente) mas que comparecem nas folhas de pagamentos. Uma fatura e uma farra que como se vê a cada dia nos jornais se estendem por todos os poderes e aparelhos de estado. Hoje não há mais nada isento no país, com protagonistas de atos de corrupção, desvios, no Executivo, Legislativo, Judiciário, polícias… E a marginalidade, fora da sustentação legal, cresce e é incentivada pela impunidade das autoridades pagas para não permitir que ele tivesse crescido e, tendo crescido, tomar as providências cabíveis.
É preciso acabar com a demagogia e o cinismo e “privatizar” o Estado. Pelo menos no conceito de administração, de ser o síndico que administra os recursos, os interesses e as soluções para as necessidades do país e da nação. Romper de vez com a imbecilidade de que existe um conceito de administração para gerir os bens públicos e outro conceito para os negócios privados, como se em um e em outro caso, os limites não estivessem nos recursos escassos, na eficiência no atendimento das necessidades dos consumidores (ou contribuintes) e na eficácia da gerência dos recursos disponíveis.
O primeiro passo, claro, seria enxugar o Estado, com duas vantagens diretas e imediatas (suficientes também para oposição política instantânea): o Estado ficaria mais barato e com menos recursos sociais a serem desperdiçados, e os serviços desmembrados atenderiam melhor a sociedade. Como aconteceu com a telefonia, por exemplo. Imagine hoje, nós suportando as telefônicas estatais funcionando com a “eficiência” de empresas estatais como Banco do Brasil ou Caixa Econômica Federal?
Um cara tranquilo, sereno, atencioso. Parecia um destes políticos que não tem compromisso com nada e que passa as manhãs, dias, anos, enrolando, pedindo voto, sorrindo, carregando menino no braço, sem ter nada para fazer na vida. Até o pagamento é depositado na conta. Há uma centena de assessores para enrolar os outros eleitores que eventualmente procurarem por ele.
O Zé Alencar não. Era o dono de mais de uma centena de empresas, presidente da poderosa Fiemg e podia tirar um dia, uma semana, sem prejuízo dos seus negócios.
Eu ficava ouvindo o Zé e imaginando que eu, que não tinha nenhum CGC (hoje CNPJ), tava até com meu CPF cancelado sem me fazer falta alguma, um aspone, trabalhava 16 a 18 horas por dia e não conseguia tirar uma hora para cortar cabelo ou aparar as unhas.
E vejo o Zé Alencar, como vejo o Sílvio Santos, o Antônio Ermírio de Moraes, o Bill Gates, grandes executivos planetários que têm os maiores negócios do mundo e viajam, fazem palestras, participam de eventos, animam longos programas de auditório, escrevem artigos para jornais, fazem lobby, participam de lançamentos de produtos, mantêm contatos com a imprensa, dão entrevistas. E os negócios deles estão funcionando, crescendo, se desenvolvendo, incorporando novos produtos, novas empresas, novos mercados.
Eles não são vaidosos, nem relapsos. Têm equipes, assessores, sistemas administrativos, financeiros e contábeis seguros em seus empreendimentos. É legal ver um Bradesco, com sei-la-quantas agências espalhadas pelo país, em lugares que nem existem no mapa, mas que funcionam e estão sob controle do “sistema”. Lá dentro tem um monte de dinheiro, contas de dezenas, centenas, milhares de correntistas, além de empréstimos, financiamentos. Atrás da mesa, muitas vezes, um gerente com cara de bocó que sabe fazer duas continhas de matemática financeira: de juros simples nas contas a pagar e de juros compostos nas contas a receber. E o Banco, a Instituição, cresce, acumula lucros, bate o exercício anterior, amplia, expande. O sistema controla…
São sistemas, hoje, informatizados e alimentados por pessoas, profissionais, empregados selecionados, treinados e enquadrados dentro de uma cultura institucional que inclui o uniforme, a linguagem, o incentivo, a lealdade.
Nada muito diferente de uma Escola de Samba. Imagine a administração de uma escola de samba, a diversidade de profissionais envolvidos, do nível básico a pós-graduado, da costureira aos arquitetos e autores dos efeitos especiais; as estrelas envolvidas, a parafernália e alas a serem postas disciplinadamente na avenida, sambando ao ritmo do samba, na ponta do cronômetro…
Eu fico pensando nisto tudo e olhando no jornal qual foi a última grandiosa empresa que quebrou por falha no sistema. Não vejo mais do que novos nomes surgindo no mercado, competindo, um novo Sol tentando brilhar sobre a Antártica e por aí a fora.
Mas tudo isto eu entendo perfeitamente. Desde as grandes organizações fincadas sobre administração profissional que surgiram, muitas vezes, antes das faculdades de administração quando administrar era, no cerne, só o que continua sendo: bom senso. Claro, se profissional, tem também alguns instrumentos auxiliares com um método DuPont ou um conceitozinho sofisticado como marketing, mídia, 5S e outras coisas absolutamente dispensáveis mas que se aplicados ajudam.
Há organizações maiores que qualquer qualquer estado ou empresa que cresceram e acumularam riquezas, com uma rede planetária eficiente, centenas de anos antes de qualquer conceito de administração. Como a Igreja Católica que nasceu naquele diálogo de Jesus Cristo com Pedro, o Pescador.
Aliás, quando vi o 5S pela primeira vez e alguém querendo me convencer que ele foi importado do Japão, olhei desconfiado… Juraria por minha mãe que aquilo tinha sido inventado pela minha mãe ou pela minha mulher… Qualquer dona de casa aplica aquilo sem nunca ter ouvido falar naquilo…
Bão… Agora o que eu não entendo e nunca vou entender é porque um Estado -como o brasileiro, por exemplo, é tão complicado, tão burocrático, tão caro, tão dispendioso, cheio de furos, furtos, corrupção e que se perpetua assim tão descaradamente, sem nenhum controle, alimentado diariamente, hora a hora, segundo a segundo, por cada cidadão comum, trabalhador, empresário, que parecem, todos, esconder uma cumplicidade, uma conivência covarde com esta ineficiência e roubalheira.
Já não é hora de mudar isto? Organizar esta bagunça e criar um estado, como uma organização profissional, que administre este grande condomínio, arrecadando o que é devido por cada um e aplicando racionalmente no interesse comum, inclusive na remuneração dos responsáveis por esta administração?
Por quê há tanto interesse em defender o Estado da forma como ele está (des)organizado? Claro, qualquer cidadão comum teria a resposta na ponta da língua: para facilitar a corrupção, o descalabro, a sustentação de milhares de políticos ativos (o que não quer dizer trabalhando, mas ocupando um cargo eletivo), outros milhares inativos (literalmente) mas que comparecem nas folhas de pagamentos. Uma fatura e uma farra que como se vê a cada dia nos jornais se estendem por todos os poderes e aparelhos de estado. Hoje não há mais nada isento no país, com protagonistas de atos de corrupção, desvios, no Executivo, Legislativo, Judiciário, polícias… E a marginalidade, fora da sustentação legal, cresce e é incentivada pela impunidade das autoridades pagas para não permitir que ele tivesse crescido e, tendo crescido, tomar as providências cabíveis.
É preciso acabar com a demagogia e o cinismo e “privatizar” o Estado. Pelo menos no conceito de administração, de ser o síndico que administra os recursos, os interesses e as soluções para as necessidades do país e da nação. Romper de vez com a imbecilidade de que existe um conceito de administração para gerir os bens públicos e outro conceito para os negócios privados, como se em um e em outro caso, os limites não estivessem nos recursos escassos, na eficiência no atendimento das necessidades dos consumidores (ou contribuintes) e na eficácia da gerência dos recursos disponíveis.
O primeiro passo, claro, seria enxugar o Estado, com duas vantagens diretas e imediatas (suficientes também para oposição política instantânea): o Estado ficaria mais barato e com menos recursos sociais a serem desperdiçados, e os serviços desmembrados atenderiam melhor a sociedade. Como aconteceu com a telefonia, por exemplo. Imagine hoje, nós suportando as telefônicas estatais funcionando com a “eficiência” de empresas estatais como Banco do Brasil ou Caixa Econômica Federal?