Causos

Tanios Syrio*

PADRECO

Geraldo Padre é meu amigo de infância. Desde criança e até hoje é meu amigo do peito.

Desde 1968, quando fui buscar melhor sorte em Belo Horizonte, voltava todo final de semana e passava metade do tempo proseando e contando "causo" com o Padre, botando a vida em dia. A outra metade do tempo namorava.
Teve um dia que minha mãe mandou-me almoço lá no Bar do Padre, com o seguinte recado: "Se Maomé não vai à Montanha, a Montanha vai a Maomé".
Mas aquela convivência com o Padreco, me divertia demais. Me fazia feliz.
Adorava seu jeito de sorrir; mais parecendo uma criança engolindo fôlego; ficava alguns segundos em silêncio e depois soltava aquela gargalhada.
O Geraldo Padre era um cara tranqüilo demais. E essa sua despreocupação me preocupava. Eu sempre o aconselhava: - Geraldo: Você precisa pensar em alguma coisa mais concreta; num emprego fixo. Depois, tem aposentadoria, tranqüilidade, família. Vamos embora pra Capital. Cê mora lá em casa!
Ele ouvia agradecido e retrucava: Muito Obrigado meu amigo, mas eu não posso deixar o Quinho (Duriquinho), o Munda, o Vavá, o Zé Durico, a Ditinha e a Lica. Eles não vivem sem mim. Isto pra não dizer o contrário.
Um dia, o Banco me promoveu a Gerente. Passei em 1º lugar em concurso interno em todo o Brasil e fui designado Gerente da Matriz na Praça Sete.
O Padreco sempre me visitava em suas idas à BH e aproveitando meu moral elevado, convidei-lhe a trabalhar de Caixa em minha Agência.
-Vamos Geraldo! Você tem a experiência lá do bar, sabe mexer com dinheiro!
-Mexe com isso não. Tô muito bem lá na minha terra!
Fiz tudo que podia. Aconselhei, argumentei e nada. Fiquei com minha contrariedade. Deixei até a possibilidade de uma experiência e nada.
Mas uma coisa era certa. Toda ida do Geraldo Padre a BH, obrigatoriamente ele me visitava. E eu sentia um orgulho imenso daquele homem e daquele gesto. Acho até que meus colegas de Banco tinham inveja daquela amizade.
Tempos depois, fui promovido a Gerente Geral. E aí a coisa melhora.
Chamei o Padreco ao pé do ouvido e insinuei: Você pode ser Gerente. Melhorava muito a situação. Tem que ser agora senão vai ficar difícil.
Mas o Geraldo Padre por nada deste mundo se animava a ir pra BH.
Eu sempre lhe mandava recado, cobrava-lhe alguma decisão e nada.
Um final de semana, entre um jogo de sinuca e uma cerveja, insinuei:
-Padre: Fale o que você quer que eu arrumo. Tenho muito conhecimento lá na Capital e não será difícil lhe arrumar uma colocação!
O Padreco meio sem graça, olhou pra mim, pensou... pensou e disse:
-Tem uma coisa.... não sei se vai dar jeito!
-Diga Homem de Deus. Retruquei todo animado.
-Me contaram, que você é muito amigo de Dom Serafim.
-E sou! Gerencio as contas da PUC, dos Colégios Arquidiocesanos, da Fundação Mariana Rezende Costa, da Cúria Metropolitana, dos Padres.
-Pois é! Corre um boato aqui na cidade que o Padre José de Freitas vai se aposentar. Se for verdade, taí um negócio que me interessa!
Engoli em seco, pedi mais uma cerveja.
Continuei e continuo visitando e proseando com o Padreco, mas nunca mais falamos de emprego!!!
04-11-06 às 20:18:11 - Categoria: General

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Tanios Syrio é bancário aposentado, autor do livro "Causos Para Uma Santa Causa e provedor da Santa Casa de Caeté