Causos

Tanios Syrio*

Galo corno, mas feliz...

Incrustada entre o pé da Serra da Piedade e da Fazenda do Ouro Fino, exponenciava uma bela propriedade, 10 ha, mansão colonial, curral, pasto, cavalos de linhagem e galinheiro de ótima produtividade.

O dono, executivo na capital, dedicava ali suas horas de calma, tranqüilidade, sossego e orgulho. E tudo cheirava prosperidade e felicidade.
Mas de repente as coisas começavam a degringolar, os negócios não iam bem e por tabela as coisas da fazendinha começaram a definhar.
Compravam produtos e insumos de má qualidade e ração só de segunda.
O patrão, boa memória, cobrava produtividade como antes.
Colhia 1 centena de ovos na boa safra. Chegava no galinheiro para apanhar e só vê duas dúzias de ovos. Chama o caseiro:
- Genaro; que qui tá havendo com essas galinhas? Há pouco tempo, tinha aqui 1 grosa de ovos, hoje essa mixaria?
- O Zé Pereira não tá dando no couro! Num tá cobrindo as galinhas direito.
- Vamo arranjá outro! Prepara ele a semana que vem que tá na hora de comê-lo. Galo frouxo não serve pra nada.
E o Zé Pereira escutava aquele papo atravessado, por entre as ripas do galinheiro e ficou apavorado.
Andava de um lado pra outro, preocupado e desesperado.
- Não pode ser! Ele não pode fazer isso comigo! Sempre fui pontual! Cantei na hora certa! A ração é fraca! As galinhas não ajudam! Ai meu Deus! Tenha Piedade!
E nesse meio tempo, surgiu uma esperança.
- Meu sobrinho Mauro. É um bonito galo índio. Tá na flor da idade! Tá bem alimentado.
O Mauro era titular de um galinheiro de um vizinho, no sítio a 2 Km da sede da fazendinha.
O Zé Pereira, esperou chegar a noite e baixou de mala e cuia para pedir socorro. E corria pela mata com cuidado. Esquivava, camuflava e despistava as muitas raposas pelo caminho.
Enfim, cansado, respirando com dificuldade, arfando e babando, chega ao galinheiro do Mauro. Este preocupado, lhe dá boas vindas:
- Tio Pereira! O senhor por aqui? Que qui aconteceu?
- Ah, meu sobrinho! Nem te conto! A coisa deu pra trás e o homem quer me comer. Você tem que me ajudar. Cobre as galinhas pra mim?
- Pode deixar meu tio; prepara as meninas que amanhã cedo eu estou lá!
Após um lanche caprichado, ração boa etc, o Zé Pereira retorna ao seu lar.
De manhãzinha chama as meninas, explicam a situação, pede cooperação e as coloca em fila indiana.
Elas é claro, entusiasmadas com o galão novo, ficam assanhadas e impossíveis. O Mauro chega, já pronto pra festa e combina com o Tio:
- O senhor começa da esquerda que eu começo da direita.
E o Zé Pereira vai:
- Bom dia minha filha! Cumé que vai sua mãe? Seu pai sarou? Sua tia sumiu, não vem mais aqui? Desculpe, estou sempre as ordens. Muito obrigado!
E o Mauro, envém igual um trator:
- Bom dia, obrigado! Bom dia, obrigado! Bom dia, obrigado! Bom dia, obrigado! Bom dia, obrigado!
- Oi querida! Tudo bem? Fiquei sabendo que você teve resfriado! Sua mãe ficou muito chocada! Num liga não, sua boba! Desculpe, Bom dia!
E o Mauro tá que tá:
- Bom dia, obrigado! Bom dia, obrigado! DESCULPE TIO! Bom dia, obrigado!
A produção voltou ao normal e o Zé Pereira continua vivo e feliz.
04-11-06 às 20:13:43 - Categoria: General

Outras notícias mais recentes desta seção
Tanios Syrio é bancário aposentado, autor do livro "Causos Para Uma Santa Causa e provedor da Santa Casa de Caeté