Causos

Tanios Syrio*

Feitiço contra o feiticeiro

Meu padrinho e tio Carlos, era o irmão caçula da grande família da minha mãe e como tal era paparicado por todos os maiores.

Nascido e crescido em Roças Novas, já na faixa dos 15 anos namorava a filha do Sô Elói e por ser lugarejo de população concentrada, qualquer ato ou fato era rotulado e carimbado.
No dia do seu aniversário, ganhou da namorada um guarda-chuva de cabo de dente de javali, inédito na praça.
Certo dia, em costumeiro encontro na Praça da Matriz, ele e seus amigos adolescentes resolveram roubar jabuticaba exatamente na casa do Sô Elói, seu sogro. Na sua vez de subir na jabuticabeira, dependurou seu inseparável guarda-chuva em um dos galhos.
De repente, cachorro rosnando e tiro pra todo lado. Meu Tio, esperto, de onde estava, já pulou no meio da rua e sumiu.
E sumiu até hoje, pois não voltou pra buscar o guarda chuva e nem pra terminar o namoro!!!
Meu pai, caixeiro-viajante, pra fazer média com minha mãe, levou o Tio Carlos em uma de suas viagens.
Cada qual em um cavalo, arrastando uma tropa de três burros lotados de mercadorias.
Já de madrugada, meu pai achou de amedrontar o rapaz e cumprimentava as árvores e animais, dando-lhes nomes de pessoas falecidas, assim:
-Como é que vai Dona Inhanhá! A senhora voltou em forma de vaca?
-Uai Juca Bala! Você agora é cabrito? Vou te dar um feixe de capim.
-Ê Zé Viriato!. Você ficou uma árvore muito bonita!
Meu Tio se arrepiava só na menção dos nomes dos falecidos; seus conhecidos.
Naquele tempo, homem que era homem andava de chapéu, sinônimo de trabalhador. Ao contrário, cabeça pelada era para desocupado.
Quando passavam por um local escuro e ermo, meu tio sentiu que alguma coisa arrancou seu chapéu e estático, gritou pro meu pai:
-Elias; alguém tirou meu chapéu!
-Foi o vento! Respondeu meu pai.
-Num foi não.- Não está ventando!
-Vou voltar e pegar seu chapéu. Respondeu o corajoso do meu pai, desaparecendo na escuridão.
Pouco tempo depois chega meu pai com um chapéu na mão e estende-o:
-Está aqui. Encontrei-o no chão, logo ali atrás.
Meu Tio esticou a mão para pegá-lo, mas largou-o e aos berros diz:
-Este não é o meu. O meu era marrom e não preto assim!
Meu Pai olhou pro chapéu, olhou pro meu Tio e não se fez de rogado. Montou no seu cavalo e saiu em disparada, seguido é claro por toda a tropa!!!
04-11-06 às 20:12:56 - Categoria: General

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Tanios Syrio é bancário aposentado, autor do livro "Causos Para Uma Santa Causa e provedor da Santa Casa de Caeté